Um João que poderia ter sido Usain Bolt

O nome do sujeito era João. Eu nunca soube o sobrenome dele, só o apelido: João Ligeiro. Estudávamos na mesma escola, pública e sem recursos, mas brilhante como a luz de um farol graças à garra e criatividade de alguns educadores apaixonados pelo ensino.
Lá tínhamos campo de futebol, biblioteca, um laboratório simples, um pequeno conservatório, merenda gostosa e aulas de reforço.
Lá havia também uma pista de atletismo, rústica, de chão batido, feita com entusiasmo num mutirão de pais, alunos e professores. É aí que nosso João Ligeiro entra em cena.

João Ligeiro não se dava bem com fórmulas matemáticas, nem com palavras e leituras, tampouco a música lhe atraía, porém, naquela pista de chão batido, ele era o senhor absoluto. Correndo descalço, praticamente sem nenhuma técnica, fazia 100 metros em 12 segundos, cronometrados manualmente por mim, o  ajudante do professor de Educação Física. Vale lembrar que na época, a barreira dos 10 segundos nos 100 metros rasos parecia ser intransponível.
Os pais de João Ligeiro eram alcoólatras, canalhas irresponsáveis aprisionados no próprio egoísmo. O irmão mais velho morava mais na cadeia do que em casa. Neste ambiente familiar de trevas, o futuro do nosso João era previsível. O atletismo poderia salvá-lo, mas infelizmente, não salvou. Sem apoio, sem perspectivas no esporte, João escolheu  a via da marginalidade, digo escolheu porque sempre temos escolha, sempre há um caminho correto à nossa frente.
Este ano, vendo a fraca atuação do atletismo brasileiro em Londres, lembrei-me do João Ligeiro e dos seus 100 metros em 12 segundos. Ele poderia ter sido um campeão olímpico, ele poderia ter sido um Usain Bolt. Bastava um mínimo de investimento público.
Infelizmente, investir no cidadão nunca foi prioridade dos políticos brasileiros. Com raríssimas exceções, a causa pública é sempre relegada ao esquecimento. O pior de tudo é que somos obrigados a engolir goela abaixo uma Copa do Mundo em 2014 e uma Olimpíada em 2016, dois eventos faraônicos que só servirão para deixar os cofres públicos abertos à voracidade dos corruptos.
Tenho orgulho dos atletas brasileiros, eles são heróis. O problema é que heroísmo não forma uma cultura de campeões. Campeões são formados nas escolas, nas universidades, nos centros de treinamento. Quando abriremos os olhos para essa verdade? Quantos Joãos Ligeiros continuarão a ser jogados no lixo?
Tempos atrás, vi João Ligeiro pela última vez. A foto dele estampava a primeira página do jornal local. Foi morto com um tiro pelas costas por um comerciante enfurecido. Tinha acabado de assaltar a loja do sujeito.
Talvez, como num conto de Borges, enquanto corria dos tiros, o tempo parasse para o nosso João, então, ele podia ver-se num estádio, no alto do pódio, Bandeira Brasileira subindo devagarzinho, Hino Nacional cantado com vigor, medalha dourada no peito, talvez!
As balas são mais velozes do que campeões imaginários. João Ligeiro morreu descalço. Ao seu lado, mergulhada na poça de seu sangue, encontraram a mercadoria roubada – um par de tênis – de corrida.


“No meio do caminho da vida, tendo perdido o caminho verdadeiro, achei-me embrenhado em selva tenebrosa.” ( O Inferno, de Dante )

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Joaquim Cruz comemora a conquista da medalha de ouro dos 800m nas Olimpíadas de Los Angeles, em 1984

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