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Johann Trollman, o boxeador cigano que humilhou Hitler

Johann Trollman, apelidado de Rukeli, era jovem, rápido e forte. Era também cigano e vivia no pior dos lugares e no pior dos momentos para o  seu povo: a Alemanha nazista de Adolf Hitler. Seis dias depois de ganhar o título de campeão da Alemanha, ele teve sua conquista anulada porque seu estilo de boxe não era digno de um esportista  ariano. Pouco tempo depois, em uma luta subsequente, Trollman protagonizou uma das mais extraordinárias e menos conhecidas histórias do boxe. Um gesto digno de um herói das tragédias gregas que ridicularizou a suposta supremacia da raça ariana.

rukeli
Trollman cresceu nos bairros pobres de Hannover. Nas mão do treinador, o boxeador judeu Erich Seelig, o jovem lutador prometia um futuro brilhante no boxe profissional. Porém, o estilo e a popularidade de Trollman irritavam cada vez mais os ideólogos nazistas. O veloz jogo de pernas e os movimentos curtos do lutador cigano contrastavam com o estilo de boxe da época: o estilo valentão, com o atleta a evocar mais a figura de um guerreiro do que a de um desportista.

"Afeminado"  e "Nada a ver com o verdadeiro boxe ariano", eram algumas das manchetes que, em 1932, foram dedicadas a Trollman pelo Völkischen Beobachter, ( O Observador Popular ) jornal oficial do partido nazista.

Apesar disso, em 1933, aos 25 anos, Trollman disputou o título alemão da categoria dos meio-pesados contra Adolf Witt, campeão dos pesados. Um combate desigual entre Davi e Golias no qual o boxeador cigano fez valer toda a sua agilidade, deixando o adversário exausto e a ponto de desmoronar no ringue. A vitória de Rukeli por pontos era evidente, justa, incontestável.



Foi então que entrou em cena a Associação de Boxe Alemã, repleta de nazistas, acusando o  cigano Trollman de enfiar os dedos no olho do adversário. Os juízes interromperam a luta e declararam empate, contudo, a multidão que assistia a luta, enfurecida pela flagrante injustiça, exigia que Trollman fosse declarado vencedor. Os juízes, acuados quase ao ponto de serem linchados, tiveram que restabelecer a verdade do combate e declarar Trollman como campeão da Alemanha.

Johann então, chorou de felicidade no ringue. O choro do campeão foi a desculpa usada pelos nazistas para anularem a sua conquista. A razão oficial: comportamento inadequado (chorar no ringue ). O verdadeiro motivo: ser cigano, mais precisamente, sinti.

Dois meses depois, uma nova luta foi organizada e Trollman foi obrigado a participar do combate. As autoridades nazistas queriam vingar a derrota de Witt e acabar com a perigosa popularidade do jovem cigano. Para garantir a derrota de Trollman, ele foi proibido de mover-se do centro do ringue e de usar seu jogo de pernas para se esquivar dos golpes, sob a pena de perder a licença de lutador. O que aconteceu em seguida, como já dito antes, foi um dos sacrifícios mais extraordinários e menos conhecidos da história dos esportes.

Johann Trollman entrou no ringue com o cabelo tingido de loiro e com o corpo totalmente coberto de farinha, um gesto sarcasmo e provocação, uma caricatura que ridicularizava a imagem do guerreiro ariano, com a qual a propaganda nazista envenenava a Alemanha. Durante o combate, Trollman ficou no centro do rinque, com as pernas afastadas, imóvel, sem esquivar-se, um após outro, dos socos de Gustav Eder,  famoso pelos golpes potentes.

Johann resistiu cinco assaltos e tombou banhado em sangue. A carreira também desmoronou com o nocaute covarde infligido pelos nazistas. Ele disputou, sem sucesso, mais nove lutas e foi obrigado a se aposentar prematuramente.

Durante os anos seguintes, a perseguição dos cidadãos ditos não arianos intensificou-se dramaticamente. Milhares de ciganos foram esterilizados, incluindo Trollman. Em 1939, ele foi convocado para as fileiras da Wehrmacht, para defender a pátria que o desprezara. Em troca desse "serviço desinteressado para o Terceiro Reich", a família do lutador permaneceria viva.



Em 16 de novembro de 1942, Himmler assina o Tratado de Auschwitz, no qual os ciganos recebem o mesmo veredicto de morte dado aos judeus. Milhares de ciganos são deportados para os campos de extermínio. Trollman é enviado para o campo de concentração de Neuengamme. Sabendo da fama de boxeador do prisioneiro, lutas  de boxe eram organizadas pelos guardas do campo para entretenimento dos militares nazistas. Pela cooperação, Trollman recebia porções extras de ração, contudo, quando a luta era com guardas alemães, ele era obrigado a perder por nocaute ou caso contrário, era deixado por dias sem alimento.

Nem a razão, nem a data da morte de Johann Trollman são bem claras. Entretanto, em 2008, um livro de Roger Reppilinger, afirmou que em 1944 o boxeador cigano participou de uma daquelas lutas no campo contra Emil Cornelius, um kapo ( prisioneiros que colaboravam com a Schutzstaffel ). Trollman venceu facilmente, porém, o kapo, inconformado com a derrota, atacou-o pelas costas com um pedaço de madeira, só parando de bater quando Trollman estava mergulhado em sangue. O ataque covarde aconteceu a vista dos condescendentes guardas nazistas.

Johann Trollman terminou assassinado na lama de  um campo de concentração, calçando luvas de boxe, que, em um mundo diferente, lhe teriam conduzido à glória.

Em 2003, setenta anos depois de conquistado legitimamente, o cinturão de campeão dos meios-pesados da Alemanha foi entregue aos herdeiros do boxeador. Nas ruas de Hamburgo pode-se ver uma placa memorial em homenagem ao lutador, e em 9 de junho de 2010 foi inaugurado em  Berlim um monumento  a Johann Trollman, o pugilista cigano que ridicularizou o Terceiro Reich.

Um dos principais e mais polêmicos historiadores contemporâneos, o britânico Niall Ferguson, afirma neste livro que o século XX foi o mais violento de todos os tempos. Desprovido de uma agenda ideológica e sempre apoiado em fatos, números e estatísticas, ele explica o que levou a humanidade a cometer tantas atrocidades. Ferguson analisa em detalhes não só as grandes guerras mundiais, mas conflitos que mataram milhares, como as guerras da Coreia e da China, e os regimes genocidas, como  da Ruanda, entre outros.

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